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11 junho 2009

Medo de dormir

"Meto os dedos no interior da massa negra do seu cabelo crespo e rebelde como toda a sua natureza, e desencanto os seus sorrisos ao compasso da música. Os mesu dedos são também pássaros entre folhagem de ébano profundo.
O meu pé busca o seu pé no meio deste oceano, em que se converteu a nossa cama. Uma cama em que não se fala; uma cama em que, sem outros trâmites, apenas se faz amor; uma cama em que o seu gelado silêncio e o seu formoso rosto, voltado para a parede, me transformam em náufrago. Num puro papel molhado. Num puro objecto à mercê do vaivém das marés.
(...)
Tenho medo de dormir. Medo do que possa suceder quando ultrapassar o véu que separa os dois mundos em que se converteu a minha vida.
Devagar, muito devagarinho, eu sumo-me na agonia da sua respiração. Quero entrar no seu "tempo", fundir-me com o seu arrítmico crepitar de toros húmidos que se negam a arder. Quem me dera dormir no seu sono para escapar do meu...
Fecho os olhos. Fecho os olhos. Fecho os olhos?"

María Elena Cruz Varela, A vingança de Joana d'Arc

11 maio 2009

Viagens



"O pó guarda a memória dos passos, desafia a brevidade da areia lavada pela asa do mar e pelo vento. A sombra das figueiras denuncia o sol, como um ferro quente na terra. Silêncio e secura: a lâmina da sede. Nem a hortelã nos amacia a aspereza da língua. As sílabas do levante traduzidas pelo sul. O pó é uma ressonância: albúm encarquilhado pela saudade. E o futuro também não é para aqui chamado. Por favor.


(...)


Logo vais ter as mãos suspensas no luar: a memória da tarde. Sem dares por isso, as constelações começam a furar o firmamento, à medida que o azul envelhece e se decanta sobre o mar. Primeiro, ainda verás o gado recolher cabisbaixo, a procissão rural das bestas, sobrevoada pelas aves recortadas na distância. Só as folhas, a tremura dos arbustos, denunciam a mudança: esse sopro breve que apaga o sol e atiça o perfume do levante."


Jorge Fallorca, Longe do Mundo

20 abril 2009

O algures

"Tudo para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar que explicava ou imaginarem que explicava ou conseguir finalmente explicar a si próprio que aquilo que ele procurava era sempre algo que estava diante de si, e mesmo que se tratasse do passado era um passado que mudava à medida que ele avançava na sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, digamos não o passado próximo a que cada dia que se passa acrescenta um dia, mas o passado mais remoto. Chegando a qualquer nova cidade o viajante reencontra o seu passado que já não sabia que tinha: a estranheza do que já não somos ou já não possuímos espera-nos ao caminho nos lugares estranhos e não possuídos.
Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça viver uma vida ou um instante que poderiam ser seus; no lugar daquele homem agora poderia estar ele se tivesse parado no tempo muito tempo antes, ou se muito tempo antes numa encruzilhada em vez de tomar uma estrada tivesse tomado a oposta e ao cabo de uma longa volta viesse encontrar-se no lugar daquele homem naquela praça. Agora, daquele seu passado verdadeiro ou hipotético ele está excluído; não pode parar; tem de prosseguir até outra cidade onde o espera outro seu passado, ou algo que talvez tivesse sido um seu possível futuro e agora é o presente de outro qualquer. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.
- Viajas para reviver o teu passado? - era agora a pergunta do Kan, que também podia ser formulada assim: - Viajas para achar o teu futuro?
E a resposta de Marco: - O algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá."
Italo Calvino, As cidades invisíveis

11 abril 2009

Lugares



"Evidentemente, comentou então o croata, era mais divertido, ou emocionante, matar devido a um ódio sólido e bom. Mais satisfatório e vulgar. Com o sangue ao rubro, uivando de júbilo enquanto se esfola a vítima.
- É como o álcool ou o sexo - acrescentou. - Acalmam muito, aliviam. Mas para homens que, como nós, passaram muito tempo a olhar para a mesma paisagem, esse alívio permanece longínquo. Uma navalha partida entre os escombros de uma casa, uma montanha despida atrás do arame farpado, o fundo de um quadro oara onde se viaja durante toda a vida... Lugares, lembre-se, de onde nunca mais se consegue voltar."

Arturo Pérez-Reverte, O Pintor de Batalhas

04 abril 2009

Melancolia 2

"Apenas Veneza era impossível de classificar: alterava-se, era fluida, fundia-se, ora tinha cor de jade e rosa, ora era cor de púrpura suave, quando o pôr do Sol ficava encoberto pelas nuvens. Veneza era o azul de um vestido da Virgem de Tintoretto, o castanho da madeira da Cruz num quadro de Carpaccio; Veneza era a escuridão dos olhos de Isabella, o cor-de-rosa pálido da sua boa, o preto das gôndolas e do sofrimento.
A nostalgia tem a ver com a idade; ele aceita isso, mas lamenta que só na sua mente consiga, agora, encontrar a variedade de cores da vida. Hoje, todo aquele esplendor, o brilho dos lábios, dos olhos e da paisagem, diminuiu e desapareceu na escuridão de um quarto, em Paris, numa noite chuvosa. E ele é um homem velho."

Lee Langley, Uma conversa no Quai Voltaire

26 fevereiro 2009

Regresso


Voltar
a percorrer o inverso dos caminhos
reencontrar a palavra sem endereço
e contra o peito insuficiente
oferecer a lágrima que não nos defende
Recolher as marcas da minha lonjura
os sinais passageiros da loucura
e adormecer pela derradeira vez
nos lencçois em que anoitecemos
Reencontrar secretamente
o fugaz encanto
o perfeito momento
em que a carne tocou a fonte
e o sangue
fora de mim
procurou o seu coração primeiro
Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas

22 fevereiro 2009

Desertos universais


Era como se não houvesse nomes, aqui, como se não houvesse palavras. O deserto lavava tudo no seu vento, apagava tudo. Os homens tinham a liberdade do espaço no olhar, a sua pele era igual ao metal. A luz do Sol esplendia em todo o lado. A areia ocre, amarela, cinzenta, branca, a areia leve deslizava, mostrava o vento. Cobria todos os vestígios, todos os ossos. Repelia a luz, expulsava a água, a vida, longe de um centro que ninguém podia reconhecer. Os homens bem sabiam que o deserto não os queria para nada: por isso caminhavam sem parar, pelos caminhos que outros pés já haviam percorrido, para encontrar outra coisa. A água, essa, estava nos aiun, os olhos, cor de céu, ou então nos leitos húmidos dos velhos riachos de lama. Mas não era água para o prazer ou para o repouso. Era quando muito um vestígio de suor à flor do deserto, o dom parcimonioso de um Deus seco, o último movimento da vida. Água pesada arrancada à areia, água morta das fendas, água alcalina que provocava cólicas, que fazia vomitar. Era preciso ir mais longe, um pouco curvado para a frente, na direcção que tinha sido apontada pelas estrelas.
Mas era o único, talvez o último país livre onde as leis dos homens já não tinham importância. Um país para as pedras e para o vento e também para os escorpiões e os gerbos, que sabem fugir e esconder-se quando o sol queima e a noite gela.

J. M. G. Le Clézio, Deserto

06 fevereiro 2009



TRÍPTICO



I
Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.



Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amado é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que trasforma a coisa amada.



Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquel grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador.
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.



E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.



II
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.



Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.



Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,



que te procuram.



III
Todas as coisas são mesa para os pensamentos
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão

fechada puramente sobre o ombro.
Junto as coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos - meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.



E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
a minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.



Ela explica tudo, e o vir para mim -
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
- é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.



Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
- E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.

Herberto Helder, Ofício Cantante

07 setembro 2008

Lar, doce lar...

"Não escrevo muito em casa. Preciso de outras condições e de outros lugares. Mas posso pensar, ouvir música, ler na cama e tomar apontamentos. Posso alimentar quatro amigos; e, pensando bem, é um sítio onde posso pendurar o chapéu."

Bruce Chatwin, Anatomia da Errância

29 agosto 2008

Antínoo

Sob o peso nocturno dos cabelos
Ou sob a lua divina do teu ombro
Procurei a ordem intacta do mundo
A palavra não ouvida

Longamente sob o fogo ou sob o vidro
Procurei no teu rosto
A revelação dos deuses que não sei

Porém passaste através de mim
Como passamos através da sombra

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética II

28 agosto 2008

Um amor que nos consome

"Mas os rostos que procuramos desesperadamente escapam-nos: nunca é mais que um momento..."

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

14 agosto 2008

Lunar

Nunca mais poderei deixar o meu corpo esquecido junto ao teu. O mundo que não existia longe da tua pele. Os meus dedos a deslizarem pela superfície da pele das tuas mãos. E o desejo enganava-nos.

José Luís Peixoto, Antídoto

18 junho 2008

Onde quer que o encontres

Onde quer que o encontres -
escrito, rasgado ou desenhado:
na areia, no papel, na casca de
uma árvore, na pele de um muro,
no ar que atravessar de repente
a tua voz, na terra apodrecida
sobre o meu corpo - é teu,

para sempre, o meu nome.

Maria do Rosário Pedreira, Nenhum Nome Depois

29 abril 2008

Entre Julho e Novembro

3.


É onde não respiras que a morte me descobre
e pretende apertar-me num casaco de pedra
É onde não respiras Mas rebenta a revolta
com o curto-circuito de uma cadeira eléctrica

É onde não respiras E vou roendo as trevas
à procura da pista de mais um europorto
e daquelas cidades onde só nos conhece
o amor que trazemos entranhado no corpo

Esta noite é tão negra que seria uma estrada
se não houvesse a esperança de aves e aviões
Ou melhor a promessa de uma hora inexacta
Ou melhor a certeza de fugirmos os dois

David Mourão-Ferreira, Do Tempo ao Coração

10 abril 2008

Melancolia

O homem que existiu


II.
A melancolia é uma questão de tempo,
disse-me o homem. Era um homem que existia,
normal como os que existem.
Daqueles que não
costumam vir nos poemas
porque não
são centros de metáfora ou de revolução.
Porque não
gritam nunca.
Porque não
dizem não.


Hoje sei.
A melancolia é uma questão de falta
de tempo.


Filipa Leal, O problema de ser norte

09 abril 2008

Nós e as palavras

Dúvida

Sabemos que as palavras
nos protegem do mundo.
Mas quem nos protege
das palavras?


José Mário Silva, Nuvens & Labirintos

27 março 2008

Palavras que se sentem

vésperas do medo

viajo por este lugar onde cresceu
a fronteira entre a noite e a palavra,
aqui os animais trazem o medo até à minha mão:
e nela fica a baba;
vive-se a desolação no que resiste de um corpo,
na casa entregue à voracidade das trepadeiras;
viajo pelo equívoco de um rosto
frente a outro rosto o relatório
lê a tua vida até ao nome

Rui Nunes, Ofício de Vésperas

21 março 2008

Como se a morte não bastasse

Não mais que abandono

sabeis o meu destino: não prolongueis, por isso,
mais que as palavras e as demoras. abandonai-me
nas longínquas pedras junto da água e deixai-me
morrer profundamente como se a morte não bastasse.

nao há enganos: por mim é outro que do aroma do
mar colhe a pequena imagem que por outro se repete
como se não bastasse uma vez adormecer no eclipse
mas tudo ao abandono nos condenasse, para sempre.

sabeis o meu destino e sabeis que ele não se perde
em mim mas em outro que por mim morre lentamente,
como se a morte não bastasse. é nesse outro que vivo

e nesse outro perco-me a mim mesmo enquanto peixes
e cores do inverno invadem a casa, perdidamente, para
poder encontrar abandono, não mais que abandono.

Francisco José Viegas, Todas as Coisas

19 março 2008

Dedicado a S.

Sombras

1.
a ti recordo a todas as horas do tempo,
e isso é a alegria única, a que não morre nem aguarda,
e por ela escondo as luzes da cidade, e entendo que existe
um movimento permanente sob o céu,

reconheço o nome das espécies, invento aquilo que há-de vir,
aquilo que te ofereço, o que se encontra nu sobre a noite,
inclino-me sobre os teus passos a todas as horas do tempo,
confio nos calendários que se aproximam,
espalho faróis sobre os mapas.

se me afasto de ti, deixo-te o coração,
levo o teu em troca.

2.
se me afasto de ti, deixo-te o coração,
levo o teu em troca, nele respiro, ardo como um nome frio,
junto às vozes da rua uma passagem ilumina as tardes
com um perfume novo; o movimento dos barcos
habita o mar, desenhos do paraíso vivem disso, e do céu,

e de um corpo que tem saudades do corpo que lhe é mais seu.
tenho sonhos. um no outro descobrimos dias sem infinito.
o aroma permanece nas salas depois do amor,
sigo-o como à luz do mar, a tua voz está sempre próxima;
inverno a inverno, quando vierem, nos acolhem
docemente, só o milagre de um dia haver um jardim como este.

3.
este é o jardim em imagens perfeitas, comigo repleto do que nasceu
entre nós. o prazer de uma mesa onde crescem o pão,
as moedas, a alegria, o não ter senão dois nomes para o tempo:
o teu e aquele que há-de vir.

e outras coisas ainda: a primeira claridade da noite, rasgando-a,
e o vento que chega do deserto, a chuva nos campos,
os caminhos mais longos.

4.
um dia teria de haver um jardim como este,
nele crescerá a hera aguardando o inverno,
haverá um lugar nele, as crianças brincam e aguardam também,
como ambos sabemos.
será assim o registo desse lugar, e assim o diremos como geógrafos:
a parte das estrelas, o telhado da casa, os morangos,
a copa das árvores, a mesa, a roupa, as vozes no crepúsculo,
os degraus, a sombra, a varanda, a sede, setembro,
a água da chuva, o lado de fora de um fruto,
o lado de dentro de um fruto, o perfume do teu lenço,
as folhas de outono no jardim, as abelhas, o silêncio
no cume de um monte, a inocência, o verão,
o azul, o azul infinito, as veredas do bosque,
a caligrafia dos teus recados, as árvores reconhecidas,
os desenhos de um barco nas ilhas do sul,
uma viagem aos trópicos, as fotografias mais antigas,
a neblina, os anjos, o teu nome junto de um farol.

5.
a quem darei todos os dias da minha vida? a voz que levo
em mim impressa como o rumor dos jardins, os rebanhos
descem pelas encostas, a neve abandona as giestas,
uma banda de província comemora o entardecer. tu e eu dançaremos
como antigamente o verão nos chamava, pelas romarias,
e passaremos as noites em viagem. reinventei o mundo agora,
tu o fizeste assim, uma única vez se diz o nome que nos fez
voar sobre as searas. a quem darei a minha vida?
aquilo que deixámos um no outro marcado como um fogo,
o sobressalto, as novas palavras. o tempo demora, e volve, devagar,
sobre si mesmo, nos pátios mais antigos. do primeiro ao último dia,
a quem darei todos os dias da minha vida?

6.
nome amado, o teu, como o aroma mais perfeito
de todo o tempo.
há um declive verde nas colinas, a sombra emudece,
a névoa separa as margens de um rio,
a neve poisa entre os carvalhos, o linho adormece na terra,
a música prepara o seu regresso, suspensa na noite
entre os seus temores.
nome amado, o teu, nome demorado na minha vida,
nome que não esquece onde eu preparo o nome de ambos

como as razões antes das tempestades,
entre os dedos crescem as florestas, iluminam-se
as águas, o rosto de um corpo junto de outro corpo.

Francisco José Viegas, O Medo do Inverno

17 março 2008

Inspirações



se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha que nos sinaliza a vida


sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor


depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo


mas se a juventude viesse novemente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição

Al Berto, O Medo