21 junho 2009

Marcha

10ª Marcha do Orgulho LGBT, Lisboa, 2009

Afinal não eramos assim tão poucos.
E, de qualquer maneira, só fez falta quem lá esteve :)

11 junho 2009

I'm miles from where you are

Snow Patrol & Martha Wainwright
Set The Fire To The Third Bar

I find the map and draw a straight line
Over rivers, farms, and state lines
The distance from 'A' to where you'd be
It's only finger-lengths that I see
I touch the place where I'd find your face
My finger increases of distant dark places

I hang my coat up in the first bar
There is no peace that I've found so far
The laughter penetrates my silence
As drunken men find flaws in science

Their words mostly noises
Ghosts with just voices
Your words in my memory
Are like music to me

I'm miles from where you are,
I lay down on the cold ground
I, I pray that something picks me up
And sets me down in your warm arms

After I have travelled so far
We'd set the fire to the third bar
We'd share each other like an island
Until exhausted, close our eyelids
And dreaming, pick up from
The last place we left off
Your soft skin is weeping
A joy you can't keep in

I'm miles from where you are,
I lay down on the cold ground
And I, I pray that something picks me up
and sets me down in your warm arms

I'm miles from where you are,
I lay down on the cold ground
and I, I pray that something picks me up
and sets me down in your warm arms

Medo de dormir

"Meto os dedos no interior da massa negra do seu cabelo crespo e rebelde como toda a sua natureza, e desencanto os seus sorrisos ao compasso da música. Os mesu dedos são também pássaros entre folhagem de ébano profundo.
O meu pé busca o seu pé no meio deste oceano, em que se converteu a nossa cama. Uma cama em que não se fala; uma cama em que, sem outros trâmites, apenas se faz amor; uma cama em que o seu gelado silêncio e o seu formoso rosto, voltado para a parede, me transformam em náufrago. Num puro papel molhado. Num puro objecto à mercê do vaivém das marés.
(...)
Tenho medo de dormir. Medo do que possa suceder quando ultrapassar o véu que separa os dois mundos em que se converteu a minha vida.
Devagar, muito devagarinho, eu sumo-me na agonia da sua respiração. Quero entrar no seu "tempo", fundir-me com o seu arrítmico crepitar de toros húmidos que se negam a arder. Quem me dera dormir no seu sono para escapar do meu...
Fecho os olhos. Fecho os olhos. Fecho os olhos?"

María Elena Cruz Varela, A vingança de Joana d'Arc

05 junho 2009

Chasing Cars
Snow Patrol


We'll do it all,
Everything,
On our own.
We don't need
Anything
Or anyone.

If I lay here,
If I just lay here,
Would you lay with me and just forget the world?

I don't quite know
How to say
How I feel.
Those three words
Are said too much.
They're not enough.

If I lay here,
If I just lay here,
Would you lay with me and just forget the world?
Forget what we're told
Before we get too old.
Show me a garden that's bursting into life.

Let's waste time
Chasing cars
Around our heads.
I need your grace
To remind me
to find my own.

If I lay here,
If I just lay here,
Would you lay with me and just forget the world?
Forget what we're told
Before we get too old.
Show me a garden that's bursting into life.All that I am,
All that I ever was
Is here in your perfect eyes, they're all I can see.
I don't know where,
Confused about how as well,
Just know that these things will never change for us at all.

If I lay here,
If I just lay here,
Would you lay with me and just forget the world?

11 maio 2009

Viagens



"O pó guarda a memória dos passos, desafia a brevidade da areia lavada pela asa do mar e pelo vento. A sombra das figueiras denuncia o sol, como um ferro quente na terra. Silêncio e secura: a lâmina da sede. Nem a hortelã nos amacia a aspereza da língua. As sílabas do levante traduzidas pelo sul. O pó é uma ressonância: albúm encarquilhado pela saudade. E o futuro também não é para aqui chamado. Por favor.


(...)


Logo vais ter as mãos suspensas no luar: a memória da tarde. Sem dares por isso, as constelações começam a furar o firmamento, à medida que o azul envelhece e se decanta sobre o mar. Primeiro, ainda verás o gado recolher cabisbaixo, a procissão rural das bestas, sobrevoada pelas aves recortadas na distância. Só as folhas, a tremura dos arbustos, denunciam a mudança: esse sopro breve que apaga o sol e atiça o perfume do levante."


Jorge Fallorca, Longe do Mundo

04 maio 2009

Apaixonei-me por esta música. Lembra-me de ti. Não sei porquê. Quer dizer, até sei, mas é um segredo só meu :)

"even if the world falls down today

You still got me to hold you up

And I would never let you down"

20 abril 2009

O algures

"Tudo para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar que explicava ou imaginarem que explicava ou conseguir finalmente explicar a si próprio que aquilo que ele procurava era sempre algo que estava diante de si, e mesmo que se tratasse do passado era um passado que mudava à medida que ele avançava na sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, digamos não o passado próximo a que cada dia que se passa acrescenta um dia, mas o passado mais remoto. Chegando a qualquer nova cidade o viajante reencontra o seu passado que já não sabia que tinha: a estranheza do que já não somos ou já não possuímos espera-nos ao caminho nos lugares estranhos e não possuídos.
Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça viver uma vida ou um instante que poderiam ser seus; no lugar daquele homem agora poderia estar ele se tivesse parado no tempo muito tempo antes, ou se muito tempo antes numa encruzilhada em vez de tomar uma estrada tivesse tomado a oposta e ao cabo de uma longa volta viesse encontrar-se no lugar daquele homem naquela praça. Agora, daquele seu passado verdadeiro ou hipotético ele está excluído; não pode parar; tem de prosseguir até outra cidade onde o espera outro seu passado, ou algo que talvez tivesse sido um seu possível futuro e agora é o presente de outro qualquer. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.
- Viajas para reviver o teu passado? - era agora a pergunta do Kan, que também podia ser formulada assim: - Viajas para achar o teu futuro?
E a resposta de Marco: - O algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá."
Italo Calvino, As cidades invisíveis

17 abril 2009

Dias e noites

Por vezes não há dias nem noites
e tudo o que resta é um sorriso cravado dentro de nós
para nos acompanhar quando tudo se desmorona

Por vezes há horas maiores que a vida
horas fundas em que o bater do coração nos atordoa
como um prenúncio de morte

Por vezes os dias duram longas horas
sem que encontremos palavras ou gestos
e tudo o que possamos dar seja silêncio

Mas por vezes há palavras que chegam suavemente
sorrisos que nos levam para muito longe
e nos salvam de nós próprios

11 abril 2009

Lugares



"Evidentemente, comentou então o croata, era mais divertido, ou emocionante, matar devido a um ódio sólido e bom. Mais satisfatório e vulgar. Com o sangue ao rubro, uivando de júbilo enquanto se esfola a vítima.
- É como o álcool ou o sexo - acrescentou. - Acalmam muito, aliviam. Mas para homens que, como nós, passaram muito tempo a olhar para a mesma paisagem, esse alívio permanece longínquo. Uma navalha partida entre os escombros de uma casa, uma montanha despida atrás do arame farpado, o fundo de um quadro oara onde se viaja durante toda a vida... Lugares, lembre-se, de onde nunca mais se consegue voltar."

Arturo Pérez-Reverte, O Pintor de Batalhas

04 abril 2009

Melancolia 2

"Apenas Veneza era impossível de classificar: alterava-se, era fluida, fundia-se, ora tinha cor de jade e rosa, ora era cor de púrpura suave, quando o pôr do Sol ficava encoberto pelas nuvens. Veneza era o azul de um vestido da Virgem de Tintoretto, o castanho da madeira da Cruz num quadro de Carpaccio; Veneza era a escuridão dos olhos de Isabella, o cor-de-rosa pálido da sua boa, o preto das gôndolas e do sofrimento.
A nostalgia tem a ver com a idade; ele aceita isso, mas lamenta que só na sua mente consiga, agora, encontrar a variedade de cores da vida. Hoje, todo aquele esplendor, o brilho dos lábios, dos olhos e da paisagem, diminuiu e desapareceu na escuridão de um quarto, em Paris, numa noite chuvosa. E ele é um homem velho."

Lee Langley, Uma conversa no Quai Voltaire

02 abril 2009

Recordações

Li isto, e fiquei a pensar. Faz sentido, faz todo o sentido. São os pequenos momentos da vida que mais recordamos, escassos segundos que um dia mais tarde nos ficam presos na memória.
Sei que não vou esquecer o dia em que o meu avô morreu, , em que a minha mãe me foi buscar à escola e me deu a notícia; eu tinha seis anos, e durante meses não consegui adormecer com medo de morrer a dormir. Sei que não vou esquecer o momento em que, pela primeira vez, alguém me beijou, e eu soube que era tão certo e tão errado. O momento em que vi nos olhos da minha mãe que ela sabia que eu amava uma rapariga, e que por muito que ela só me deseje felicidade, eu lhe dei a maior desilusão da vida dela. O dia em que passeamos juntas, e te vi sorrir como nunca antes.
Não é por esses momentos que um dia alguém me vai recordar, se chegar sequer a recordar. É por ter sido boa ou má pessoa, rica ou pobre, que fez isto ou aquilo. Mas é nesses momentos tão curtos que eu me reconheço. São esses pequenos momentos que constroem quem eu sou.

29 março 2009



Kiss Me, Oh Kiss Me
David Fonseca


So when the fight is over,
And the storm is through,
Now will you pick another?
What will you get into?

So you stand in the corner,
With those boxing gloves on you,
You're old, scared and lonely,
Yeah we've all been there too… uh uh
We've been all there too…

Kiss me, oh kiss me,
If that can make it right.
Try me, find me,
Just throw them on me…
Those failed expectations…
Floods and afflictions you're through.
Cause I just might, take them home with me.

And the cracks in the pavement,
Yeah we've all fell there before,
And bones built into skeleton,
We've all been through that door.

Kiss me, oh kiss me,
If that can make it right.
Try me, find me,
Just throw them on me…
Those failed expectations…
Floods and afflictions you're through.
Cause I just might…

Kiss me, oh kiss me,
Will that make things right?
Try me, find me,
Just throw them on me…
Those failed expectations…
Floods and afflictions you're through.
Cause I just might…
I just might, take you home.

Kiss me, kiss me,
We've all been there too,
Kiss me, kiss me
We have all been there too,
Kiss me, kiss me
We've all been there too,
Kiss me, kiss me
So kiss me…

Just in case you might have any doubts... :)

27 março 2009



Shiver
Natalie Imbruglia


I walk a mile with a smile
And I don't know
I don't care where I am
But I know it's alright

Jump the tracks
Can't get back
I don't know anyone around here
But I'm safe this time

Cos when you
Tell me, tell me, tell me
Stupid things, like you do
Yes, I
Have to, have to, have to
Change the rules
I can't lose

Cause I shiver
I just break up
When I'm near you
It all gets out of hand
Yes I shiver
I get bent up
There's no way that
I know you'll understand

We talk and talk
round it all
Who'd have thought
We'd end up here
But I'm feeling fine
In a rush
Never trust
You'll be there
If I'd only stop and take my time

Cos with you
I'm running, running, running
Somewhere I can't get to
Yes I have to have to have to
Change the rules
I'm with you

Cause I shiver
I just break up
When I'm near you
It all gets out of hand
Yes I shiver
I get bent up
There's no way that
I know you'll understand
What if you get off at the next stop
Would you just wave as I'm drifting off
If I never saw you again
Could I
Keep warm
As this
Inside

Cause I shiver
I just break up
When I'm near you
It all gets out of hand
Yes I shiver
I get bent up
There's no way that
I know you'll understand

24 março 2009

I'm sorry

I wish things were easier. I wish love wouldn't hurt so bad. I wish I had the answers for all your questions. And for all of my questions. But I don't have them. I have no ideia of what I'm doing. Of what I feel. I'm completely lost.
I can't erase the past, I can't take the pain away from you. I will only cause you more pain.
You have the right to hate me, but I know you won't do that, even wanting. You have the right to think I'm a monster. Sometimes I do seem one.
All the times I said "I love you", I meant what I said. But somehow that feeling is disapering. And I feel impotent for being unable to do something to avoid that.
I'm really sorry for all the pain I caused you. And for all the pain I may still cause. I never wanted to hurt you. I only wanted you to be happy. But now I can't make you happy. I know I'm the worst person in the world for all the mistakes I've been making. But I can't avoid them. I can't to anything.

23 março 2009





Relax, Take It Easy
Mika


Took a ride to the end of the line
Where no one ever goes.
Ended up on a broken train with nobody I know.
But the pain and the longing's the same
When you're dying.
Now I'm lost and I'm screaming for help alone.

Relax, take it easy
For there is nothing that we can't do.
Relax, take it easy
Blame it on me or blame it on you.

It's as if I'm scared.
It's as if I'm terrified.
It's as if I'm scared.
It's as if I'm playing with fire.
Scared.
It's as if I'm terrified.
Are you scared?
Are we playing with fire?

Relax
(Love) There is an answer to the darkest times.
It's clear we don't understand it, but the last thing on my mind
Is to leave you.
I believe that we're in this together.
Don't scream – there are so many roads left.

Relax, take it easy
For there is nothing that we can't do.
Relax, take it easy
Blame it on me or blame it on you.

Relax, take it easy
For there is nothing that we can't do.
Relax, take it easy
Blame it on me or blame it on you.

Relax, take it easy
For there is nothing that we can't do.
Relax, take it easy
Blame it on me or blame it on you.

Relax, take it easy
For there is nothing that we can't do.
Relax, take it easy
Blame it on me or blame it on you.

It's as if I'm scared.
It's as if I'm terrified.
It's as if I'm scared.
It's as if I'm playing with fire.
(Relax)
Scared.
It's as if I'm terrified.
Are you scared?
Are we playing with fire?

Relax
Relax

04 março 2009



às vezes faz mesmo falta alguém.

03 março 2009

I will (definitely) wait another day

26 fevereiro 2009

Regresso


Voltar
a percorrer o inverso dos caminhos
reencontrar a palavra sem endereço
e contra o peito insuficiente
oferecer a lágrima que não nos defende
Recolher as marcas da minha lonjura
os sinais passageiros da loucura
e adormecer pela derradeira vez
nos lencçois em que anoitecemos
Reencontrar secretamente
o fugaz encanto
o perfeito momento
em que a carne tocou a fonte
e o sangue
fora de mim
procurou o seu coração primeiro
Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas

22 fevereiro 2009

Desertos universais


Era como se não houvesse nomes, aqui, como se não houvesse palavras. O deserto lavava tudo no seu vento, apagava tudo. Os homens tinham a liberdade do espaço no olhar, a sua pele era igual ao metal. A luz do Sol esplendia em todo o lado. A areia ocre, amarela, cinzenta, branca, a areia leve deslizava, mostrava o vento. Cobria todos os vestígios, todos os ossos. Repelia a luz, expulsava a água, a vida, longe de um centro que ninguém podia reconhecer. Os homens bem sabiam que o deserto não os queria para nada: por isso caminhavam sem parar, pelos caminhos que outros pés já haviam percorrido, para encontrar outra coisa. A água, essa, estava nos aiun, os olhos, cor de céu, ou então nos leitos húmidos dos velhos riachos de lama. Mas não era água para o prazer ou para o repouso. Era quando muito um vestígio de suor à flor do deserto, o dom parcimonioso de um Deus seco, o último movimento da vida. Água pesada arrancada à areia, água morta das fendas, água alcalina que provocava cólicas, que fazia vomitar. Era preciso ir mais longe, um pouco curvado para a frente, na direcção que tinha sido apontada pelas estrelas.
Mas era o único, talvez o último país livre onde as leis dos homens já não tinham importância. Um país para as pedras e para o vento e também para os escorpiões e os gerbos, que sabem fugir e esconder-se quando o sol queima e a noite gela.

J. M. G. Le Clézio, Deserto

20 fevereiro 2009


SOLIDÃO

Um mar rodeia o mundo de quem está só. é
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. «É um mundo impenetrável», diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.
Nuno Júdice, Pedro, Lembrando Inês

16 fevereiro 2009

É uma daquelas músicas que me arrepia. E que me acalma.

06 fevereiro 2009



TRÍPTICO



I
Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.



Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amado é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que trasforma a coisa amada.



Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquel grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador.
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.



E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.



II
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.



Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.



Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,



que te procuram.



III
Todas as coisas são mesa para os pensamentos
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão

fechada puramente sobre o ombro.
Junto as coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos - meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.



E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
a minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.



Ela explica tudo, e o vir para mim -
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
- é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.



Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
- E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.

Herberto Helder, Ofício Cantante

03 fevereiro 2009





Hoje, pela primeira vez em muitos anos, escrevi uma carta. Pelo meu próprio punho, a sentir o arranhar da caneta no papel a cada palavra. E gostei. E gostei mais ainda das expressões que vi na cara da pessoa a quem entreguei essa carta.

Às vezes uma coisa tão simples sabe-nos tão bem.


Fotografia de Maria Isabel Batista

02 fevereiro 2009


Por motivos de falta de tempo, exclusivamente da culpa da autora, este blogue foi deixado ao abandono durante vários meses. Muita coisa aconteceu desde então. Espero agora conseguir regressar, não com fôlego renovado, mas com algumas palavras que entretanto aprendi. Palavras que se agarram à pele quando menos esperamos.

Fotografia de autor desconhecido

07 setembro 2008

Lar, doce lar...

"Não escrevo muito em casa. Preciso de outras condições e de outros lugares. Mas posso pensar, ouvir música, ler na cama e tomar apontamentos. Posso alimentar quatro amigos; e, pensando bem, é um sítio onde posso pendurar o chapéu."

Bruce Chatwin, Anatomia da Errância

29 agosto 2008

Antínoo

Sob o peso nocturno dos cabelos
Ou sob a lua divina do teu ombro
Procurei a ordem intacta do mundo
A palavra não ouvida

Longamente sob o fogo ou sob o vidro
Procurei no teu rosto
A revelação dos deuses que não sei

Porém passaste através de mim
Como passamos através da sombra

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética II

28 agosto 2008


Fotografia de Patrícia Gomes Lucas, Furnas, Ericeira

Um amor que nos consome

"Mas os rostos que procuramos desesperadamente escapam-nos: nunca é mais que um momento..."

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

20 agosto 2008

Fotografia de Patrícia Gomes Lucas, Praia dos Pescadores, Ericeira

14 agosto 2008

Lunar

Nunca mais poderei deixar o meu corpo esquecido junto ao teu. O mundo que não existia longe da tua pele. Os meus dedos a deslizarem pela superfície da pele das tuas mãos. E o desejo enganava-nos.

José Luís Peixoto, Antídoto

O coração falha um batimento

O coração falha um batimento
nesta casa de sombras esquecidas
repito os mesmos gestos
o mesmo tom de voz
repito a mesma melancolia resignada

somos silenciosos
esperamos horas sem fim pela palavra distraída
vemos o mundo acordar lá fora
mas não aqui

temos a sabedoria e o frio do mármore
o medoe o vento assobiando nas janelas
a memória
os passos que ecoam
o castigo de deus nas almas dos homens

Walking

Sometimes there's no hope in the other side of the passage.

Fotografia de autor desconhecido

10 julho 2008

As palavras dos teus olhos

Trago-te no correr dos dias na curva dos ombros
nas palavras dos teus olhos quando me observas deitada sobre a cama
trago-te no silêncio espesso da noite
ou na voz que me embala junto ao teu peito

o dia morre para lá desta janela
e no reflexo do vidro vejo o rosto que dizes surgir das sombras
quando menos espero

tenho a juventude nas pontas dos dedos
reinos de lucidez e sabedoria
a respiração demorada dos sonhos por sonhar
e um murmúrio surdo dentro de mim que te pede que me guardes
ainda que tudo se desmorone

trago-te em mim
e nas horas inquietas deste amor
no fumo do cigarro que se espalha no ar
no tremor das minhas mãos quando te aproximas
tenho-te a ti
e a uma vida inteira para imaginar

18 junho 2008

O ardor das lágrimas

Sempre que esta distância se impõe
vejo dentro de mim um vazio tão negro
tão fundo
e julgo cair para dentro dele
para dentro de mim mesma

neste vagar de horas interrompidas
espero silenciosamente
uma solidão que me redima
poder sentir no peito a palavra que murmuras
para lá do ardor das lágrimas

Onde quer que o encontres

Onde quer que o encontres -
escrito, rasgado ou desenhado:
na areia, no papel, na casca de
uma árvore, na pele de um muro,
no ar que atravessar de repente
a tua voz, na terra apodrecida
sobre o meu corpo - é teu,

para sempre, o meu nome.

Maria do Rosário Pedreira, Nenhum Nome Depois

20 maio 2008

Sempre que regressavas

2
Agora estás longe
e nós nem sempre conseguimos sentir a tua falta
não ouço a tua voz colada às paredes da minha memória
não espero ver-te chegar ao cair da noite

já não temos tempo para recuar
inventar as conversas que não tivemos
pedir-te um abraço
quando eu tinha seis anos e medo de morrer a dormir

já não há a inocência de acreditar
que um dia vais mudar
afastar os silêncios e sorrir
ou simplesmente
perguntar-me como foi o dia

já não há lagrimas para chorar
no escuro do meu quarto
no escuro do meu corpo
não há mágoa para guardar no peito

agora estás longe
e eu não espero o teu regresso

19 maio 2008

Sempre que regressavas

ao meu pai

1
Sempre que regressavas
a casa enchia-se de um silêncio espesso
e os nossos passos ecoavam nos corredores
como se procurassemos não tocar no chão

olhavamos a mesa posta para o jantar
a porta que ficava sempre aberta
as luzes deixadas acesas
a roupa espalhada no quarto

nunca tinhas um gesto ou uma palavra
nunca te lembravas como se sorri
ou como se constrói um mundo de sonhos na juventude

eu não sabia como medir a distância entre nós
nem como atravessar esse espaço negro
cheio de ausências e coisas por dizer

por isso sempre que regressavas
deixávamos o silêncio cair sobre a casa
e eu fechava-me no fundo de mim própria
para não ver
quanto de ti passava por trás dos meus olhos

Rios sempre iguais

Amanhece devagar
sobe-nos à boca o sabor do medo
da inquietude de perder detalhes
minerais brilhantes nos recantos da memória

sombras atravessam as paredes e os corpos
demoram-se sobre a pele
deixam gravada a sua presença

depois há a fuga para norte
(ou para a noite)
para dias mais frios gestos mais ternos que nos embalam na escuridão

abandonamos as cidades da nossa juventude
deixamos os segredos nos jardins
vestígios de loucura
e regressamos por rios sempre iguais

14 maio 2008

Segredos

Voltas atrás
recordas minuciosamente cada gesto
a lucidez e o relógio parado
o vento a estilhaçar vozes na rua

recordas o silêncio e o medo da morte
as mãos trémulas e o sangue
o tempo que não tiveste para crescer

depois disso amaste
odiaste o mundo fumaste sofregamente
não houve lágrimas que te redimissem
e levassem os ruídos da noite
que sempre te assustaram

não houve presente que te tirasse
a dor de nem o teres conhecido

12 maio 2008

Em certos dias a loucura...

Escrevo-te porque não tenho palavras
Escrevo-te porque te perco na distância deste silêncio
no cansaço do sonho que nos atraiçoa

escrevo-te a lápis para te ter mais perto
para te tocar na suavidade da página
sentir a tua pele estremecer sob os meus dedos
quando nada mais me pode salvar

escrevo-te sem esperanças nem impérios
sem areais ao anoitecer
sem cidades escuras onde fomos felizes

escrevo-te na vastidão desta insónia
murmúrios no lento passar das horas
dias em que julgo que a loucura se aproxima

08 maio 2008

Silêncios

Oiço a tua voz nas entrelinhas do poema
mesmo quando a ausência nos consome

as imagens repetem-se sempre iguais
esperar por um autocarro fumar um cigarro
patir para o destino que já não reconheço

quando aqui cheguei não tinha palavras
nem madrugadas
só o silêncio vago da solidão
tu deste-me todas as tuas palavras
permitiste-me usá-las
e construir com elas o nosso futuro

hoje sei que vive entre nós a distância deste abandono
a arte de apaziguar as sombras que nos acompanham
e atravessar cada dia com uma serena esperança no amanhã

29 abril 2008

Entre Julho e Novembro

3.


É onde não respiras que a morte me descobre
e pretende apertar-me num casaco de pedra
É onde não respiras Mas rebenta a revolta
com o curto-circuito de uma cadeira eléctrica

É onde não respiras E vou roendo as trevas
à procura da pista de mais um europorto
e daquelas cidades onde só nos conhece
o amor que trazemos entranhado no corpo

Esta noite é tão negra que seria uma estrada
se não houvesse a esperança de aves e aviões
Ou melhor a promessa de uma hora inexacta
Ou melhor a certeza de fugirmos os dois

David Mourão-Ferreira, Do Tempo ao Coração

28 abril 2008

Travessias



Registo em silêncios o itinerário da longa viagem
que inevitavelmente terei de fazer
por entre equívocos e ruas cinzentas

pressinto que se aproxima uma despedida
uma porta entreaberta na penumbra da casa
uma respiração lenta que anuncia a manhã

todos os abismos me chegam como vozes dispersas
desejos de eternidade na ponta dos dedos
a vibração do mar que nos leva para longe

nem sempre chegamos a tempo de salvar alguém
que nos habita o peito
e nem sempre as lágrimas preenchem o vazio dentro de nós
ou o amor nos leva as sombras

Fotografia de Todd McDonald

16 abril 2008

Diálogos mudos



3.
Os nossos corpos respiram intensamente
coroando de luz todos os gestos
todas as marcas que deixas gravadas na minha pele
dia após dia

anoitecemos lentamente
com um cansaço sereno nas pontas dos dedos
renunciamos ao mundo que nos engole
e só encontramos refúgio na subtil desilusão do crepúsculo

temos silêncios nas mãos e o estremecer do coração
a terna escuridão das nossas próprias palavras

temos a ingenuidade deste amor
um sorriso fechado em dias nublados
a tranquilidade lenta com que te aproximas do abismo
aproximamos
diálogos mudos ou jardins distantes

Fotografia de Hugo Gomes

14 abril 2008

A cadência do coração


1.
De todas as promessas feitas
fica-nos na boca o sabor leve
de um dia as cumprirmos
como o beijo pelo qual esperámos em noites de insónia
e que guardámos docemente no peito

sonhamos com cidades sombrias
no silêncio distante do futuro
para onde possamos fugir quando tudo se desmorona

acordamos e adormecemos na neblina espessa destes dias
mãos geladas o teu corpo na penumbra

construimos listas e mapas
vastas cartografias do tempo
por onde os nossos gestos não passam

esquecemos o que fez de nós murmúrios
paisagens abandonadas vestígios de paixão

acordamos uma e outra vez
no incêndio lento do amanhecer
sem saber ainda o que a luz fará de nós


2.
Não sabemos por vezes o que a luz fará de nós
quando o dia começa sem aviso
e nos acorda para o frágil passar das horas

temos (nesses momentos) a certeza
de nenhuma solidão nos poder devastar novamente
enquanto as minhas lágrimas se perdem na pele do teu ombro

esperamos pacientemente pelo anoitecer
com suas vozes surdas fumo dos cigarros
fragmentos de uma memória mutilada
o ruído da morte que não olhamos nos olhos

nesses momentos escutamos a cadência do coração
batendo do meu peito para o teu
no espaço restrito deste amor
onde se esconde a sombra da noite
e a intensa respiração dos nossos corpos

13 abril 2008

Fatalidades

Será assim tão terrível o passar das horas
esperar num vão de escada assombrado
pelo teu regresso

sem tabaco sem sonhos
consumida pela fatalidade de não ter palavras quando te aproximas
e de nem sempre os silêncios dizerem tudo o que se sente

esperar envolta em sombras medos
tantos anos de solidão à flor da pele

e por fim
abandonar-me à mudez da tua ausência

10 abril 2008

Melancolia

O homem que existiu


II.
A melancolia é uma questão de tempo,
disse-me o homem. Era um homem que existia,
normal como os que existem.
Daqueles que não
costumam vir nos poemas
porque não
são centros de metáfora ou de revolução.
Porque não
gritam nunca.
Porque não
dizem não.


Hoje sei.
A melancolia é uma questão de falta
de tempo.


Filipa Leal, O problema de ser norte

Cidades esquecidas

Fotografia de Alexei Gourianov

09 abril 2008

Violência do silêncio

Como se de uma morte se tratasse
atravessamos dia a dia o vazio ruidoso da cidade
seguimos os relógios e as marés
melancolia que nos habita por dentro

nas manhãs mais negras
fechamos os olhos e adormecemos à beira do abismo
como se de uma morte se tratasse
com a voz da noite na memória

nem sempre chegamos a tempo
demasiado sós a enfrentar o vento
ou a nossa cegueira de todas as horas
nem sempre sabemos que o momento passou

tememos a escuridão e a loucura
o amor
e a súbita violência do silêncio

Nós e as palavras

Dúvida

Sabemos que as palavras
nos protegem do mundo.
Mas quem nos protege
das palavras?


José Mário Silva, Nuvens & Labirintos

07 abril 2008

Dreaming...



Just let the blood run red
cause I can´t feel anymore
Kyoto was a dream

Fotografia de Alexei Gourianov




02 abril 2008

Solidão




E, de repente, uma absurda solidão.
Fotografia de Sandra Ferrás

31 março 2008

Amanhã vai ser um dia ainda mais perfeito




Nas ruínas do amanhecer sinto subitamente a tua falta
como se por estares aqui agora tudo fosse diferente
como se um gesto teu desse sentido ao caos dentro de mim

procuro na tua ausência
uma forma de sobreviver a este silêncio desolado que me consome
um vestígio deste amor insone
a recordação do teu sorriso numa tarde de outono
em que julguei que morria de tanto te querer

o vento atravessa a rua vazia
acompanha-me neste desespero
que se desvanece com o passar das horas

saber que lentamente te aproximas
e que amanhã vai ser um dia ainda mais perfeito

27 março 2008

Palavras que se sentem

vésperas do medo

viajo por este lugar onde cresceu
a fronteira entre a noite e a palavra,
aqui os animais trazem o medo até à minha mão:
e nela fica a baba;
vive-se a desolação no que resiste de um corpo,
na casa entregue à voracidade das trepadeiras;
viajo pelo equívoco de um rosto
frente a outro rosto o relatório
lê a tua vida até ao nome

Rui Nunes, Ofício de Vésperas

26 março 2008

Faça-se silêncio



Por vezes é no silêncio que encontramos todas as respostas.
Fotografia de Vítor Ribeiro

Dias como hoje



Há dias em que a realidade se torna uma dor
tudo parece demasiado terrível
tudo se desmorona dentro de mim
o único refúgio possível parece ser a solidão

não há sorriso possível
não há voz que me traga à superfície
cada vez mais só dentro de mim

e depois surges tu
como se as sombras tivessem fraquezas
e pudesse acreditar que me afastas delas
surges tu mais forte que este medo
e com um gesto trazes-me do fundo desta angústia que não escolhi

há dias em que tudo se consome
como um vento demasiado gelado que nos toca no rosto
mas já nem sequer magoa

e há dias em que sorris e tenho-te em mim
cada vez mais forte dentro de mim
e apetece ficar aqui mais um bocadinho
adormecer devagar
acordar ao teu lado
Fotografia de Rafael Vieira

24 março 2008

Ardor e sombras

Tudo o que de negro há em nós nos consome
nos destrói pouco a pouco
a mágoa que lentamente corrói memórias de risos e ternura
que traz à flor da pele ardor e sombras

procuramos no tempo uma cura que nunca chega
uma redenção de todos os erros
uma promessa sussurrada ao anoitecer
já não temos a inocência de acreditar em melhores dias

vives neste país de desencanto e brumas
não sabes se o amanhã chegará a tempo
se haverá palavras que te tirem o medo da morte

palavras que te tragam de volta o sorriso que tanto amaste

23 março 2008

Só abandono



Dói-me o que nos resta no fim de uma noite
corpos gelados como se estivessemos ausentes

dói-me esta distância que entre nós se construiu
recordar o passado que guardas em ti
e te consome
perder gestos e palavras a cada momento

ficamos depois assim só abandono
ver as horas passar nos teus olhos
silenciar este rumor que me povoa o peito
encontrar uma voz frágil um esquecimento
que nos possa salvar

21 março 2008

Não me fujas

Porque é que teimas em esconder o que há em ti? Como se não confiasses em mim, como se tudo fosse desmasiado terrível? Sabes bem que não é. Sabes que não há o que me faça desistir. Nada nem ninguém, lembraste? Eu sei que me escondo, sei que me recuso a mostrar-te tanta coisa, tanto que te poderia mostrar se não tivesse um medo tão grande de te perder. Mas, por favor, não te tornes igual a mim. Não te deixes levar por esta escuridão tão funda e dolorosa. Senão quem me salvará? Quem me abraçará quando o mundo se vira contra nós, meu amor?

Como se a morte não bastasse

Não mais que abandono

sabeis o meu destino: não prolongueis, por isso,
mais que as palavras e as demoras. abandonai-me
nas longínquas pedras junto da água e deixai-me
morrer profundamente como se a morte não bastasse.

nao há enganos: por mim é outro que do aroma do
mar colhe a pequena imagem que por outro se repete
como se não bastasse uma vez adormecer no eclipse
mas tudo ao abandono nos condenasse, para sempre.

sabeis o meu destino e sabeis que ele não se perde
em mim mas em outro que por mim morre lentamente,
como se a morte não bastasse. é nesse outro que vivo

e nesse outro perco-me a mim mesmo enquanto peixes
e cores do inverno invadem a casa, perdidamente, para
poder encontrar abandono, não mais que abandono.

Francisco José Viegas, Todas as Coisas

20 março 2008

Solidão silenciosa




Mantenho esta dolorosa distância
por não ter maneira de lhe fugir
como se fosse neblina dentro do corpo
um silêncio resignado

temo o amanhecer os desenganos
a morte
uma lágrima na tua voz

temo arrastar-te para a solidão que há em mim


Fotografia de Renato Brandão

19 março 2008

Vi-te acordar




Vi-te acordar. Olhos fechados, gestos lentos, voz entorpecida. Vi-te acordar e fui feliz, tão absurdamente feliz, por poder estar em silêncio a teu lado, muda de deslumbramento, perdida num momento tão simples e tão perfeito. Ainda agora, tempo passado, não sei ao certo o que senti, não sei como foi possível tudo aquilo, uma noite, uma vida inteira nos teus braços.
Só sei que aconteceu. E não podia ter sido de outra forma.

Fotografia de Eric Alan Pritchard

Dedicado a S.

Sombras

1.
a ti recordo a todas as horas do tempo,
e isso é a alegria única, a que não morre nem aguarda,
e por ela escondo as luzes da cidade, e entendo que existe
um movimento permanente sob o céu,

reconheço o nome das espécies, invento aquilo que há-de vir,
aquilo que te ofereço, o que se encontra nu sobre a noite,
inclino-me sobre os teus passos a todas as horas do tempo,
confio nos calendários que se aproximam,
espalho faróis sobre os mapas.

se me afasto de ti, deixo-te o coração,
levo o teu em troca.

2.
se me afasto de ti, deixo-te o coração,
levo o teu em troca, nele respiro, ardo como um nome frio,
junto às vozes da rua uma passagem ilumina as tardes
com um perfume novo; o movimento dos barcos
habita o mar, desenhos do paraíso vivem disso, e do céu,

e de um corpo que tem saudades do corpo que lhe é mais seu.
tenho sonhos. um no outro descobrimos dias sem infinito.
o aroma permanece nas salas depois do amor,
sigo-o como à luz do mar, a tua voz está sempre próxima;
inverno a inverno, quando vierem, nos acolhem
docemente, só o milagre de um dia haver um jardim como este.

3.
este é o jardim em imagens perfeitas, comigo repleto do que nasceu
entre nós. o prazer de uma mesa onde crescem o pão,
as moedas, a alegria, o não ter senão dois nomes para o tempo:
o teu e aquele que há-de vir.

e outras coisas ainda: a primeira claridade da noite, rasgando-a,
e o vento que chega do deserto, a chuva nos campos,
os caminhos mais longos.

4.
um dia teria de haver um jardim como este,
nele crescerá a hera aguardando o inverno,
haverá um lugar nele, as crianças brincam e aguardam também,
como ambos sabemos.
será assim o registo desse lugar, e assim o diremos como geógrafos:
a parte das estrelas, o telhado da casa, os morangos,
a copa das árvores, a mesa, a roupa, as vozes no crepúsculo,
os degraus, a sombra, a varanda, a sede, setembro,
a água da chuva, o lado de fora de um fruto,
o lado de dentro de um fruto, o perfume do teu lenço,
as folhas de outono no jardim, as abelhas, o silêncio
no cume de um monte, a inocência, o verão,
o azul, o azul infinito, as veredas do bosque,
a caligrafia dos teus recados, as árvores reconhecidas,
os desenhos de um barco nas ilhas do sul,
uma viagem aos trópicos, as fotografias mais antigas,
a neblina, os anjos, o teu nome junto de um farol.

5.
a quem darei todos os dias da minha vida? a voz que levo
em mim impressa como o rumor dos jardins, os rebanhos
descem pelas encostas, a neve abandona as giestas,
uma banda de província comemora o entardecer. tu e eu dançaremos
como antigamente o verão nos chamava, pelas romarias,
e passaremos as noites em viagem. reinventei o mundo agora,
tu o fizeste assim, uma única vez se diz o nome que nos fez
voar sobre as searas. a quem darei a minha vida?
aquilo que deixámos um no outro marcado como um fogo,
o sobressalto, as novas palavras. o tempo demora, e volve, devagar,
sobre si mesmo, nos pátios mais antigos. do primeiro ao último dia,
a quem darei todos os dias da minha vida?

6.
nome amado, o teu, como o aroma mais perfeito
de todo o tempo.
há um declive verde nas colinas, a sombra emudece,
a névoa separa as margens de um rio,
a neve poisa entre os carvalhos, o linho adormece na terra,
a música prepara o seu regresso, suspensa na noite
entre os seus temores.
nome amado, o teu, nome demorado na minha vida,
nome que não esquece onde eu preparo o nome de ambos

como as razões antes das tempestades,
entre os dedos crescem as florestas, iluminam-se
as águas, o rosto de um corpo junto de outro corpo.

Francisco José Viegas, O Medo do Inverno

Falta-nos tempo

Falta-nos tempo
para olhares desmedidos
palavras ternas em manhãs geladas
um toque que nos redimisse de toda a dor

falta-nos a inocência e o silêncio
longas noites de esquecimento
abandonando a solidão que nos consumiu por um beijo
como agora sentir o teu coração a bater junto ao meu na penumbra
ter-te nos meus braços horas sem fim
preencheres este vazio que queima dentro de mim com o teu sorriso

desejar não morrer nunca

falta-nos tempo para o futuro
e para o presente deste amor
um sonho que mal sabemos como sonhar

18 março 2008

A escuridão em mim

Guardo segredos. Guardo em mim tudo o que sinto que te poderá levar para longe. Todos os erros. Todas as dúvidas. Guardo-os em mim até não aguentar mais. E explodir. Faço-o porque tenho medo. Um medo horrível, que me consome por dentro, de te perder. Como agora tenho medo dessa paixão adormecida que ainda vive dentro de ti.
Salva-me dos meus medos. Salva-me de mim mesma, por favor.

17 março 2008

O porquê de aqui estar, o porquê de viver...

Era chegado o momento de anotar meticulosamente todos os sons, as conversas que ouvia no silêncio da casa; criar um diário deste amor insone, registar os seus medos e esperanças, os seus rituais, avançar em ti como agora me descubro a mim. Por isso prefiro não to dizer enquanto te encaro, por tudo o que te entrego sem confessar.
Talvez venhas a encontrar estas palavras e nelas ver tudo o não te mostro. Por agora são como que secretas, apenas suspeitas.
Ainda me falta a coragem para tas dar, meu amor.

Inspirações



se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha que nos sinaliza a vida


sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor


depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo


mas se a juventude viesse novemente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição

Al Berto, O Medo